A negociação conduzida pelo Sindicato dos Empregados no Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de Goiás, o Secom-GO, chegou a um ponto de inflexão em junho de 2026: os pontos centrais da nova Convenção Coletiva de Trabalho foram acordados com o setor patronal, com publicação prevista para até o dia 11 do mês. Entre as mudanças previstas está a restrição do funcionamento de supermercados, hipermercados e atacarejos aos domingos e feriados, com abertura permitida somente até as 11 horas nessas datas. Este artigo analisa as razões por trás dessa decisão, o que ela representa para os cerca de 30 mil trabalhadores da categoria no estado, como o exemplo do Espírito Santo influenciou o debate goiano e quais os impactos esperados para o consumidor e para o varejo alimentar.
O Pano de Fundo: Uma Disputa que Vem de Longe
O debate sobre o funcionamento do comércio alimentar nos finais de semana e feriados não é novidade no Brasil, mas ganhou nova dimensão após a publicação da Portaria nº 3.665/2023 do Ministério do Trabalho e Emprego. A norma revogou uma flexibilização de 2021 que havia incluído supermercados e farmácias na lista de atividades essenciais, o que, na prática, permitia a esses estabelecimentos abrir automaticamente aos domingos e feriados sem necessidade de negociação sindical. Com a revogação dessa permissão automática, o funcionamento nesses dias voltou a depender de convenção ou acordo coletivo de trabalho, recolocando os sindicatos no centro das decisões.
Em Goiás, o Secom-GO foi além da portaria federal. O sindicato não apenas aguardou a entrada em vigor da norma nacional, prevista para junho de 2026, como antecipou o debate e conduziu uma negociação própria com o setor patronal ao longo dos meses anteriores. Essa antecipação revela uma categoria organizada e com clareza sobre o que pretende conquistar, diferentemente do que ocorreu em ciclos anteriores, quando a convenção coletiva sequer foi fechada.
As Razões da Mudança: Mercado de Trabalho e Dignidade da Jornada
Um dos argumentos mais sólidos apresentados pelo Secom-GO ao longo do processo de negociação foi de natureza prática e econômica: as empresas do setor enfrentam crescente dificuldade para preencher vagas, em especial entre trabalhadores mais jovens, que rejeitam jornadas sem folga semanal fixa. Em um mercado de trabalho com mais opções de renda, a ausência de descanso garantido aos domingos tornou-se um fator concreto de desvantagem competitiva para o varejo alimentar na atração e retenção de pessoal.
Há aqui uma inversão interessante da lógica habitual: em vez de o setor empresarial pressionar pela ampliação do horário de funcionamento como estratégia de crescimento de receita, as próprias empresas passaram a reconhecer que a rigidez da escala sem folga dominical prejudica a operação ao aumentar a rotatividade e os custos de recrutamento. O argumento que consolidou o acordo não foi apenas a bandeira trabalhista do descanso semanal, mas a convergência entre o interesse dos trabalhadores e a realidade operacional dos empregadores.
O Modelo do Espírito Santo e Sua Influência
Goiás não trilha esse caminho no vácuo. O Espírito Santo foi o primeiro estado brasileiro a implementar o fechamento de supermercados aos domingos por meio de convenção coletiva, medida que entrou em vigor em março de 2026 e que, segundo representantes do Secom-GO, tem funcionado bem sem os impactos negativos que parte do setor patronal temia. A experiência capixaba serviu como prova de conceito para as negociações goianas, enfraquecendo o argumento de que a restrição de funcionamento resultaria necessariamente em queda de faturamento irreversível.
A contrapartida negociada em Goiás para compensar a perda das vendas de domingo envolve a extensão do horário de funcionamento aos sábados, com a possibilidade de estabelecimentos operarem até a madrugada, além da regulamentação do trabalho em feriados com o pagamento integral das horas ao trabalhador.
O Que Muda Para o Consumidor Goiano
Do lado do consumidor, a mudança exigirá uma reorganização das compras de fim de semana. Quem habitualmente utilizava o domingo como dia de abastecimento precisará migrar esse hábito para o sábado, preferencialmente no período da manhã ou em horários alternativos ampliados que o setor deverá ofertar como compensação.
A experiência de outros países onde essa restrição já é consolidada, como vários membros da União Europeia, indica que o impacto inicial na rotina do consumidor é real, mas transitório. A adaptação ocorre em poucas semanas e os índices de satisfação com os serviços disponíveis tendem a se estabilizar. O que permanece é uma mudança cultural mais profunda sobre a relação entre consumo, trabalho e tempo de lazer que vai além dos portões de qualquer supermercado
Autor: Diego Velázquez
