Taxa de desocupação bate recorde em 2026, porém queda na participação da força de trabalho e informalidade ainda preocupam economistas
O Brasil segue registrando taxas de desemprego historicamente baixas, um cenário que à primeira vista parece só trazer boas notícias para o trabalhador. A taxa de desemprego do país caiu para 5,6% no trimestre móvel encerrado em maio de 2026, ante 5,8% no período anterior, marcando a leitura mais baixa desde janeiro. Ainda assim, por trás desse número aparentemente positivo, especialistas apontam sinais de um mercado de trabalho mais complexo do que os índices sugerem à primeira vista. Informalidade, inatividade e pressão inflacionária seguem no radar de quem acompanha de perto a renda e as condições de trabalho no país, especialmente em um ano marcado por eleição e por debates no Congresso sobre jornada e direitos trabalhistas.
O que os números do desemprego realmente mostram
Olhando apenas para a taxa de desocupação, o retrato é de recorde histórico. A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012, com o mercado atingindo 103 milhões de pessoas ocupadas. A taxa média anual passou de 6,6% em 2024 para 5,6% em 2025, e o número de empregados do setor privado com carteira assinada chegou a 38,9 milhões, recorde desde 2012. Segundo a coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, Adriana Beringuy, essa melhora foi puxada principalmente pela expansão da ocupação no setor de serviços, e não por um aumento artificial provocado por queda na busca de emprego.
Mesmo assim, parte dos economistas chama atenção para um fenômeno menos visível nos números principais. A taxa de participação no mercado de trabalho, que mede o percentual da população em idade ativa que está trabalhando ou procurando emprego, recuou para 61,9% em fevereiro, cerca de dois pontos percentuais abaixo do período pré-pandemia. Segundo cálculo do Itaú, caso essa taxa de participação estivesse no nível da média histórica, o desemprego atual seria de 7,2%, e se estivesse no patamar pré-pandemia, chegaria a 8%. Ou seja, uma parcela relevante de brasileiros simplesmente parou de procurar emprego, o que ajuda a suavizar o resultado final da taxa de desocupação divulgada pelo IBGE.
Por que a inflação segue pressionando o trabalhador
O outro lado dessa equação é a inflação, que corrói o poder de compra mesmo em um cenário de mais empregos disponíveis. Como o setor de serviços é intensivo em mão de obra e a economia opera perto da capacidade máxima, o aumento de custos é repassado rapidamente ao consumidor, resultando em inflação persistente e mantendo o IPCA acima da meta de 3%. Pesquisadores do Ibre-FGV avaliam que o mercado de trabalho, que por muito tempo foi motor de crescimento, passou a alimentar esse ciclo inflacionário, já que a escassez de mão de obra qualificada pressiona salários em determinados setores sem que isso venha acompanhado de ganhos reais de produtividade.
A informalidade, embora em queda, ainda é um traço estrutural do mercado brasileiro e ajuda a explicar por que o trabalhador nem sempre sente na prática o que os indicadores sugerem. A taxa de informalidade caiu levemente para 37,5% em fevereiro, o equivalente a 38,3 milhões de trabalhadores informais, uma pequena melhora sazonal em relação ao trimestre anterior. Trabalhadores nessa condição costumam ter menor qualificação e menor produtividade, o que os deixa mais vulneráveis a oscilações de renda e menos protegidos por direitos como FGTS, férias e décimo terceiro salário, itens que fazem parte do debate permanente das centrais sindicais brasileiras.
O que esperar para o mercado de trabalho no restante do ano
Para o restante de 2026, a expectativa dos analistas é de estabilidade, mais do que de novas quedas expressivas no desemprego. Pesquisadores do Ibre-FGV projetam que a taxa média de desemprego deverá ficar em 5,9% ao longo do ano, um ajuste mínimo em relação a 2025, mantendo o mercado de trabalho apertado. Esse cenário, combinado com o calendário eleitoral e a possível aprovação de mudanças na jornada de trabalho no Congresso, deve manter o tema no centro do debate econômico e sindical nos próximos meses, especialmente entre categorias que discutem reajustes e pisos salariais em suas convenções coletivas.
A leitura mais cuidadosa dos dados mostra que desemprego baixo não é sinônimo automático de qualidade de vida melhor para todos os trabalhadores. Subutilização da força de trabalho, informalidade e inflação acima da meta seguem sendo desafios reais, mesmo em um mercado aquecido. Para sindicatos e centrais de trabalhadores, esse cenário reforça a importância de negociações coletivas que busquem não apenas reposição de perdas inflacionárias, mas ganhos reais de renda. O trabalhador brasileiro, nesse contexto, enfrenta um paradoxo: mais vagas disponíveis, mas nem sempre mais dinheiro sobrando no fim do mês.
Fontes consultadas:
https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/01/desemprego-atinge-menor-nivel-da-serie-historica-e-mercado-de-trabalho-registra-recordes-em-2025
https://blogdoibre.fgv.br/posts/mercado-de-trabalho-situacao-atual-e-desafios-para-2026
https://www.gazetadopovo.com.br/economia/desemprego-brasil-queda-inflacao-alta/
https://pt.tradingeconomics.com/brazil/unemployment-rate
