Greve dos rodoviários no Rio chega ao sexto dia sem acordo entre motoristas e empresas de ônibus

Diego Velázquez
7 Min de leitura
Greve dos rodoviários no Rio chega ao sexto dia sem acordo entre motoristas e empresas de ônibus

Categoria mantém paralisação após audiências sem consenso; nova rodada de negociação está marcada para esta segunda feira, dia 6

A paralisação dos motoristas de ônibus do Rio de Janeiro segue sem solução e já é apontada como um dos movimentos mais longos do setor nos últimos anos. A greve começou na madrugada de segunda feira, 29 de junho, depois de assembleia realizada na noite anterior, e a categoria decidiu manter o movimento até pelo menos a próxima segunda feira, dia 6, após audiência de conciliação no TRT 1 terminar sem uma nova proposta do sindicato patronal. O impasse expõe uma disputa que envolve reajuste salarial, piso da categoria e condições de trabalho, num setor que transporta milhões de passageiros por dia na capital fluminense. Enquanto trabalhadores cobram avanços concretos, empresas alegam dificuldades financeiras para atender às demandas. No meio do conflito, a Justiça do Trabalho tenta garantir um serviço mínimo à população, e episódios de vandalismo contra veículos têm chamado atenção durante os dias de paralisação.

O que motivou a paralisação dos motoristas

As reivindicações dos rodoviários cariocas vão além do reajuste salarial e tocam em pontos estruturais da categoria. Os trabalhadores pleiteiam, entre outros pedidos, reajuste salarial de 17% para as funções gerais, pisos de R$ 5 mil para motoristas de BRT e R$ 4 mil para os demais motoristas, ticket alimentação de R$ 1 mil, plano de saúde, jornada de trabalho de 5×2 e o pagamento do intervalo de refeição como hora extra. A proposta de reajuste, segundo a categoria, seria dividida em duas parcelas ao longo do ano: a primeira de 8%, paga em julho, e a outra, de 8,3%, em novembro. Entre as demandas também estão a mudança da data base da categoria, a redução de jornada, o passe livre e a ampliação dos planos de saúde, itens que aparecem como bandeiras históricas do movimento sindical dos rodoviários, segundo levantamento da Agência Brasil.

Do outro lado da mesa, o sindicato patronal reconhece a defasagem salarial, mas argumenta que não tem fôlego financeiro para atender ao patamar pedido pelos trabalhadores. A entidade defende a impossibilidade financeira de atingir tais patamares devido a uma crise estrutural de receita e à redução de subsídios por quilômetro rodado no município, mantendo a contraproposta de reajuste de 4,39%. A distância entre os dois números, 17% de um lado e 4,39% do outro, ajuda a explicar por que as rodadas de conciliação até agora não avançaram. Esse tipo de descompasso costuma se resolver apenas com a intervenção mais direta da Justiça do Trabalho ou com pressão política sobre o poder público municipal, responsável por parte dos subsídios ao setor.

Como a Justiça do Trabalho tem atuado no caso

Diante da paralisação, o TRT da 1ª Região decidiu intervir para preservar o direito de ir e vir da população. Em decisão liminar, o tribunal estabeleceu que ao menos 50% da frota operacional de cada linha deve permanecer em atividade durante a greve, o equivalente a aproximadamente 1.800 coletivos, sob pena de multa diária de R$ 50 mil para cada uma das entidades envolvidas. Nos primeiros dias, porém, o número de veículos em circulação ficou abaixo desse patamar mínimo, o que gerou filas e dificuldades de deslocamento em diversos pontos da cidade, especialmente nos horários de maior movimento.

O Ministério Público do Trabalho também acompanha o caso de perto. O órgão já havia expedido recomendação ao sindicato profissional e ao Rio Ônibus para que fosse observado o funcionamento mínimo de 50% da frota nos horários de maior demanda, e reforça que a greve é um direito fundamental assegurado pelo artigo 9º da Constituição Federal e regulamentado pela Lei 7.783, de 1989. Ao mesmo tempo, o movimento tem sido marcado por episódios de depredação de ônibus, o que gerou críticas mútuas entre sindicato e empresas. A direção do Sindicato dos Rodoviários afirmou ser contrária a qualquer tipo de ação violenta e que não compactua com esse comportamento, buscando separar a pauta legítima da categoria dos atos isolados registrados durante a paralisação.

Impacto para os passageiros e próximos passos

Para quem depende do transporte público na capital fluminense, o efeito da greve é sentido diretamente na rotina. Segundo o Rio Ônibus, sindicato das empresas, são transportados por mês 32 milhões de passageiros na cidade, número que ajuda a dimensionar o tamanho do impacto de uma paralisação prolongada sobre a mobilidade urbana. Nos primeiros dias do movimento, a frota em operação oscilou bastante: enquanto o sindicato patronal informava avanços graduais na circulação, relatos de veículos vandalizados também aumentavam, o que tornou a rotina de quem depende do ônibus ainda mais instável.

O desfecho da negociação, por ora, depende do que empresas e trabalhadores levarem à próxima rodada. O desembargador responsável pelo caso suspendeu a audiência e estabeleceu prazo até as 11h de segunda feira, dia 6, para que o setor patronal apresente uma proposta considerada viável pelo sindicato, que será submetida à avaliação da categoria em assembleia. Até lá, a expectativa é que ambos os lados cheguem à mesa com números mais próximos, já que o impasse atual tem gerado desgaste tanto para trabalhadores quanto para empresas, além do desconforto direto à população.

O caso dos rodoviários do Rio mostra um dilema recorrente do movimento sindical brasileiro: equilibrar reivindicações históricas da categoria com a saúde financeira de setores que alegam dificuldades reais de caixa. Para o trabalhador, a paralisação é instrumento legítimo de pressão, respaldado pela Constituição. Para as empresas, é um risco financeiro que se soma a outros desafios do transporte público urbano. O acompanhamento da Justiça do Trabalho tem sido decisivo para evitar o colapso total do serviço, mas a solução definitiva só deve vir com um acordo direto entre as partes. Enquanto isso não acontece, moradores do Rio seguem enfrentando filas e ônibus lotados nos horários de pico.

Fontes consultadas:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-06/rodoviarios-rejeitam-proposta-e-decidem-manter-greve-no-rio
https://diariodotransporte.com.br/2026/07/01/greve-de-onibus-entra-no-terceiro-dia-no-rio-de-janeiro-rj-a-espera-de-nova-tentativa-de-acordo/
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/sindicato-mantem-greve-de-onibus-no-rio-ate-segunda-feira-6/
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-06/motoristas-de-onibus-do-rio-iniciam-greve-nesta-segunda-feira

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